A origem dos batateiros de São Bernardo do Campo

No livro “Vila de São Bernardo“, do memorialista Attílio Pessotti, editado pela Prefeitura de São Bernardo do Campo em 1981, um dos capítulos explica a origem da expressão “batateiros” e sua associação com a gente da cidade.

Até a década de 30, havia entre a mocidade da antiga Vila de São Bernardo uma certa discriminação entre os moradores do Centro e os das colônias. Os do Centro, então chamados de almofadinhas, acompanhavam a moda e todas as suas novidades, frequentavam cinema, baile de sociedades e clubes, sendo mais aprimorados na civilidade e na elegância.

Nos banquetes, especialmente os de casamento, serviam a chamada “mesa branca”, que consistia de doces e salgadinhos, já preparados, acompanhados de cerveja e água. A seguir, o baile encerrava a festa. Era prático, econômico e não dava trabalho à cozinha, mas era inconveniente para o convidado retardatário, que estaria sujeito a nem provar os comes e bebes.

Os moradores das colônias, por se dedicarem à lavoura, eram taxados de “batateiros”. Aos poucos, esses colonos foram encaminhando os filhos para os empregos nas fábricas de móveis, tecidos e outras atividades, abandonando quase que por completo a agricultura. Mas, como designativo de habitante rural, e mesmo que no sentido pejorativo, veladamente continuavam a ser chamados de batateiros.

Eram todos gente boa e simples, falando com sotaque italiano mais acentuado. Seus meios de vida e a distância que os separava do Centro não lhes permitiam acompanhar o ambiente da Vila. Em seus banquetes, funcionava plenamente a cozinha italiana, com capeleti, risoto e frango assado, tudo regado com vinho puro, feito em casa.

Depois, vinha o baile com saudosas valsas de uma harmônica, ou a cantarola de vozes improvisadas de tutti quanti, fazendo desfilar o repertório de cantigas italianas, especialmente o tradicional “masolin dei fiori”.

A festa ia até o amanhecer e, às vezes, prolongava-se até o dia seguinte, abastecida continuamente pela cozinha e pela cantina. Era comum também para os que não estivessem acostumados a beber, ou por gostarem demais do “genuíno” de uva, tomarem uma bela “sbornia”.

À meia-noite, quando a festa estava animada, era comum aparecerem rapazes da Vila, às vezes com vistas a uma conquista amorosa. Pediam licença para se aproximar e apreciar. Eram recebidos até com simpatia, e convidados a participar da festa.

Famílias reúnem-se em festa na colônia dos Breda em 1926.
Famílias reúnem-se em festa na colônia dos Breda em 1926.

Havia, porém, uma turminha de rapazes da Vila, que, por espírito de aventura, procurava penetrar em todas as festas de casamento nas colônias. Através de um amigo, ou fingindo-se convidados de uma ou de outra parte, esses rapazes iam chegando cautelosos, delicados e sorridentes, aproveitando, inclusive, a pouca luz dos lampiões a querosene, que dificultava seu pronto reconhecimento. Com toda amabilidade, dispunham-se até a ajudar a servir as mesas. Iam, assim, estudando melhor o ambiente, aproximando-se nas dependências da casa. Aproveitando o vozerio alegre e a pouca luz, procuravam surrupiar um frango assado ou um garrafão de vinho para banquetear com a turma que os esperava a distância. Quando, porém, malograsse sua tentativa, saíam às carreiras na escuridão, sendo as pernas poucas para tanto trote. A façanha era contada depois com as maiores dimensões, para gostosas gargalhadas.

Mas os almofadinhas da Vila eram também chamados de batateiros pelos moradores de Santo André, antiga estação ferroviária de São Bernardo. Sua localidade progrediu muito. Consideravam-se mais citadinos. Viam na antiga Vila um núcleo de colônias agrícolas, achando-nos… todos batateiros.

Os nossos revidaram, apelidando-os de ceboleiros. Surgiu, assim, uma rivalidade, que se chocava especialmente entre times de futebol das duas localidades, cujas pelejas se realizavam num clima de entusiasmo e, às vezes, de violência também, o que contribuía para valorizar mais as disputas esportivas, “animadas” aqui com cebolas e lá com batatas.

No decorrer dos anos, os bairros cresceram, ligando-se aos centros. Os dois povoados progrediram e se tornaram grandes cidades. O povo também evoluiu, e os velhos sentimentos de bairrismo desapareceram no tempo. Hoje, só os habitantes mais antigos se lembram dos ceboleiros de Santo André e dos batateiros de São Bernardo.

Fonte/Fotos: Seção de Pesquisa e Documentação (Memória) de São Bernardo do Campo.

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